Por que o Twitter é tão popular no Brasil?

A Time fez uma matéria já bastante comentada pela Rede a respeito da popularidade do Twitter no Brasil. De acordo com a revista, enquanto o Twitter pega cerca de 23% dos internautas no Brasil, só 11,9% dos americanos usam. Finalmente, o Brasil ainda seria responsável por quase 65% do tráfego no site. Já que estou acompanhando o Twitter de perto faz algum tempo, resolvi comentar.

A matéria traz uma entrevista com o James Green,da Brown University, que contextualiza as ferramentas de mídia social, dizendo que após anos de ditadura no Brasil, elas são um modo de “contra-atacar” com liberdade de expressão. Além disso, o professor cita ainda a criação de espaços de inclusão digital, o aumento da classe média, o contraponto à mídia tradicional.

Embora essas razões apontadas pelo Green sejam relevantes e, inclusive, importantes, não sei se dão conta do fenômeno. O Orkut, como a matéria lembra, também é grande no Brasil. Além disso, o Brasil tem uma larga história de adoção dessas tecnologias mais “sociais”, como o Fotolog (o Brasil foi, por um bom tempo, o primeiro país em número de fotologs; weblogs, e, para entrar nos tempos do passado remoto, inclusive IRC). Estudei vários desses fenômenos a fundo e diria algumas coisas um pouco diferentes.

Algumas razões…

O Brasil já tem uma história de adoção de ferramentas sociais. Isso faz com que novas ferramentas sejam mais rapidamente apropriadas. Ou seja, já há uma apropriação social da Internet no País, o que torna o terreno propício para outras ferramentas do gênero. Outra questão importante, é que o Brasil é um país muito receptivo às tecnologias de informação e comunicação. A adoção do celular aqui é massiva, assim como dos computadores e da Internet (embora em menor grau). Creio que isso tudo pode ter sim um fundo na busca da liberdade de expressão, como afirma o Green, mas acho que há outras razões. Eu enumeraria uma delas como sendo a ativa comunidade do software livre que existe no Brasil, que acaba influenciando a discussão das TICs e a adoção dessas tecnologias (sim, entre os early adopters do Orkut estão eles). Outra seria a própria cobertura da mídia a respeito da adoção dessas tecnologias, o que gera ainda mais apropriação. Finalmente, eu diria ainda que há um sentido construído em torno das tecnologias aqui como firmemente positivas. As TICs são vistas como algo a aspirar, objeto de desejo e poder. Ou seja, há a questão da construção de sentido do consumo da tecnologia como algo necessário para o sujeito.

Mas por que o Twitter é especial?

O Twitter é um pouco diferente. Primeiro porque sua adoção não é apenas social no sentido que foi dado ao site de rede social (como o Orkut, por exemplo). É uma tecnologia de informação. Lá pelos idos de 2008/2009 eu e a Gabriela Zago publicamos alguns trabalhos sobre isso (o último foi publicado recentemente), onde discutíamos a apropriação do Twitter menos como rede de conversação e mais como rede de informação (vou referenciar no final). Com isso, o Twitter dá acesso a determinados tipos de capital social que outras ferramentas não dão, fazendo com que as redes sociais ali presentes funcionem como filtro das informações, organizando e tornando relevantes coisas específicas para seus grupos de interesse. Com isso, o Twitter conseguiu se tornar relevante para grupos de influenciadores no Brasil, como pessoas que trabalham com Internet e mídia. E virou pauta de matérias e se difundiu.

Em um segundo momento, vieram as legiões de fãs. Ou seja, principalmente adolescentes e jovens que viam no Twitter uma forma de “estar junto” de seus ídolos. Essa segunda onda é muito mais conversacional e passou a usar o Twitter como espaço de organização, criando Trending Topics como forma de “marcar presença”. Assim o Twitter passou a congregar também ainda outras formas de capital social. Nessa fase, a presença dos “famosos” e das celebridades, tanto nacionais quanto internacionais foi um fator motivador para a adoção do Twitter.

A relevância do Twitter

Apesar disso, acho que o Twitter não é uma ferramenta de uso contínuo no Brasil. Acredito que a evasão ainda seja grande e que a grande maioria dos usuários ainda está em outros espaços. Na verdade, os dados do Ibope têm mostrado que o Facebook vem crescendo de forma mais consistente, já passando o Twitter e tornando-se o segundo SRS mais usado no Brasil. (E sim, acredito que muito em breve começarão as matérias mostrando o crescimento do Facebook diretamente relacionado, também, ao crescimento do uso dos aplicativos no Brasil, de forma especial, os jogos. ) O Twitter, para mim, ainda é uma ferramenta de nicho, que faz barulho porque seus usuários são influenciadores. Mas a grande massa dos internautas brasileiros não a adotou (e acho que nem vai adotar a curto prazo).

Algumas referências:

RECUERO, R; ZAGO, G. Em busca das “redes que importam”: redes sociais e capital social no Twitter. Líbero (FACASPER), v. 12, n. 24, 2009.
RECUERO, R.; ZAGO, G. “RT, por favor”: considerações sobre a difusão de informações no Twitter.” Revista Fronteiras, vol 12, n. 2, maio-agosto de 2010.
Posts passados sobre a pesquisa do Twitter: I, II, III e IV.
Texto meu no DML a respeito das práticas sociais do Twitter no Brasil (fev 2010)

 

Fonte: Ponto Mídia

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